Quinta, 21 de Março de 2019
Adoção
Apesar dos desafios, ex-moradora em Fátima do Sul decidiu ser mãe solteira na adoção
Ela narra os desafios e alegrias de ser mãe longe de núcleo familiar ainda considerado "padrão"
08 JAN 2019
Por THAILLA TORRES / LADO B - CAMPO GRANDE NEWS
16:20

A filha chegou há 7 meses e a nova família vem descobrindo um mundo de desafios e simplicidades que fazem tudo valer a pena. (Foto: Marina Pacheco)
A defensora pública Patrícia Feitosa de Lima, nunca teve dúvidas da sua vontade de compartilhar amor. Solteira, aos 38 anos, ela decidiu ser mãe, mas sem engravidar. Durante sua gestação, algumas pessoas questionaram sobre os motivos de escolher a adoção. Longe da censura, ela abre o coração ao Lado B sobre um sentimento que não depende de uma relação, mas de amor e responsabilidade.

Enquanto Patrícia fala, a filha de 2 anos e meio, que chegou há 7 meses, brinca com seu caminhão colorido sem negar sorriso a ninguém. O olhar da mãe também é leve, assim como o coração, aliviado, pelo sentimento claro no olhinhos da filha. "Somos uma família feliz. Ela é empolgada com a vida como eu, aproveita todas as chances de ser feliz", declara Patrícia.

Casados ou solteiros, homens e mulheres que decidem adotar passam pelos mesmos procedimentos. Exigências do Judiciário são iguais, assim como o curso de preparação para adoção. Por isso, ser solteira, para Patrícia, era só um detalhe, mas muita gente questionou o motivo da adoção.

Socialmente esse processo é associado ao fato de não poder gerar um filho, isso foi uma curiosidade muito comum durante o processo. Mas minha motivação não era a maternidade, sim a maternagem, o vínculo afetivo, o desejo de educar, passar valores morais e participar da formação de um ser humano".

Na família, Patrícia é a terceira geração de mulheres mães por adoção, por isso, a decisão nunca foi uma dificuldade. "A adoção está na minha vida desde pequena. Não era nenhuma novidade a existência de vínculos tão bonitos ou o processo de construção dele".

O processo de adoção iniciou em julho de 2017. Em agosto, no dia do seu aniversário, finalizou o curso de pais, mas foi em maio de 2018 que o verdadeiro presente chegou de mãos dadas no apartamento onde mora, em Campo Grande. "O quartinho já estava pronto. Comecei a fazer no meio do processo, sem saber quando ela viria, mas desejava que ela soubesse que foi esperada".

Patrícia no aniversário de 30 dias ao lado da filha, que é apaixonada por Masha e o Urso. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas todo o histórico veio junto. A mãe teve acesso ao processo de destituição de guarda dos pais biológicos e soube o drama que a pequena enfrentou até chegar em sua casa. Quando viu a reação da filha, ela aplicou tudo que aprendeu no acompanhamento psicológico e no aprendizado sobre educação infantil, para lidar com a dificuldade natural de entendê-la. "Ela já tinha convivido com outras família, já tinha tido rupturas de vínculos, então foi natural sua vinda com um pouco de rebeldia. Ela queria saber de fato se eu não ia desistir dela. No começo, isso também me deixou cansada, mas nunca arrependida".

Ser mais solteira teve peso? Patrícia garante que sim e é realista sobre a rotina de mulheres que encaram a criação dos filhos sozinhas. "Sou muito empolgada e otimista, por isso idealizei a vinda da minha filha. Mas quando quando você ganha a criança, ela vem as dificuldades normais de uma criança. Ela chegou e queria muito colo, ainda estranhava o ambiente, chorava no meio da noite, afinal, antes era acostumada com outras crianças e aqui ela acorda com o silêncio. Tem também as regras que são diferentes na casa de acolhimento, tudo isso também um cansaço físico. Por isso, é importante a preparação dos pais para lidar com as dificuldades de uma criança".

Mas foi no dia a dia e no sorriso da filha, que ela encontrou respostas que davam certe que ser mãe solteira nunca foi impossível. "Inicialmente, isso tudo era um cansaço físico. Mas gosto de falar a verdade, porque isso é uma dificuldade que pode existir para outras mães ou pais solteiros. A terapia também foi me acalmando e me fez perceber que afeto exige memória, que relações também são construídas a partir da convivência".

Depois de 30 dias, aliado ao amor, a rotina se tornou mais prazerosa para a mãe e filha com as sutilezas da vida. "Foi especial levar ela pela primeira vez para a escolinha, preparar a mochila, lavar o uniforme, ver ela se alimentar tão bem e feliz de preparar suas coisinhas".

Detalhes que não tem preço partiram da filha. "No Natal vesti uma roupa de diferente, me olhei no espelho e ela logo me disse 'ual, como você tá bonita, mamãe'", narra Patrícia. Em seguida, a pequena disse "mamãe, estou feliz!".